segunda-feira, 1 de junho de 2020

Carta aberta sobre o dia que fui estuprada

Demorei quase 2 anos pra conseguir falar sobre isso, expor oq eu vivi para outras pessoas, sem me sentir culpada, humilhada, ou até ser vista como mentirosa. Vivi todos esses meses com essas memórias horríveis sozinha, lutando contra os pesadelos, as lembranças, o pânico de uma das piores noites da minha vida.
...
Era outono de 2018 quando eu conheci meu estuprador, um garoto até então muito legal e super atencioso q estava num aplicativo, algumas semanas se passaram e nós decidimos marcar de se conhecer, a primeira tentativa não deu certo. Resolvemos deixar pra lá. Um tempo depois eu estava voltando do trabalho e ele me mandou uma mensagem "vem aqui pra casa", eu disse não pois estava cansada, já era noite e eu só queria chegar em casa e descansar.
Ele insistiu, se ofereceu pra pagar o Uber. Acho que nesse momento eu deveria ter percebido que tudo ia dar errado. Mas não percebi.
Ele continuou, prometeu várias coisas pra fazermos juntos (nenhuma envolvia sexo), até que então eu decidi ir, porque pensei que seria legal, rir, assistir um filme, conversar depois de um dia cansativo de trabalho.
Fui. Mal sabia eu que estava prestes a ser estuprada.
Cheguei. Ele tava me esperando no portão, era a 1° vez que eu estava o conhecendo pessoalmente.
Na primeira hora tudo estava perfeito, ele ficava me encarando e em alguns momentos eu fiquei intimidada mas nada fora do normal. Foi então que resolvemos deitar, eu tava exausta e eu disse que se eu deitasse iria dormir. Ele disse que não ia deixar eu dormir, eu ri. Ele falou sério.
Deitamos e o pesadelo começou. Ele começou a elogiar meu corpo mas dizia que não conseguia ver pq eu estava com muita roupa. Ele pediu pra eu tirar. Eu disse não. Eu não estava afim, segui olhando o filme e ele pediu mais uma vez só que agora ele tentou tirar minha blusa, abaixar minhas calças. Eu pedi pra ele parar, ele disse "tu veio aqui pra que?"... não demorou muito, a postura dele mudou, ele era alto e com muita mais força que eu.
Ele subiu em cima de mim, invadiu meu corpo e eu não pude fazer nada, eu não tinha forças pra lutar contra ele, eu chorava, ele me mandava parar de fazer fiasco pq a gente estava só começando a se divertir.
Você não vai querer saber dos detalhes. Eu não quero lembrar dos detalhes. Ele parecia estar gostando e foi até o fim. Não precisou apontar uma arma para a minha cabeça. Eu já estava apavorada. Não precisou me surrar ou esmurrar. A violência me atingiu por dentro.
A calcinha em pedaços no chão, só não ficou mais arrasada do que eu. Depois que ele terminou e me mandou embora, fiquei alguns minutos com a cara no chão, cheguei em casa e sofri calada. Ainda com dores muito recentes no corpo eu tentava me lembrar do rosto do agressor, parece que meu cérebro deletou pra eu não sofrer mais. Mas eu sei o seu nome, eu sei quem me estuprou.
Ainda sou capaz de sentir o cheiro nauseante do meu agressor. Está por toda parte. E então eu percebo que mesmo se esse cara não existisse, mesmo se ele nunca tivesse cruzado o meu caminho, eu não estaria a salvo de ter sido destroçada e de ter tido a vagina arrebentada. Porque não foi só aquele cara que me estuprou. Foi uma cultura inteira. É o cara que assobia na rua, o que chega pegando no braço na festa, oq fala que quando a mulher diz "não" tá querendo dizer "sim, é o que te manda nudes sem o teu consentimento. Entre tantos outros.
Hoje eu consigo entender que não foi culpa minha, que o lixo é ele. Eu fui apenas uma vítima da maldade dele. Eu não estava de roupa curta, não estava bebada mas por momentos desejei que estivesse pra não me lembrar de tudo com tantos detalhes.
Sempre fico pensando se ele fez isso com outras garotas, que assim como eu não conseguiram denunciar e simplesmente aceitaram a viver com essa tormenta.
Hoje estou mais forte, pois finalmente estou conseguindo falar sobre isso mas ainda dói. Meu corpo tem as "marcas" desse assédio até hoje.
Mulheres denunciem, falem pra alguém, peçam ajuda. NÃO SE CALEM! E a culpa NUNCA é da gente.